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A origem das pedras da calçada portuguesa deu-se por culpa de um rinoceronte

Visto de cima, o Largo do Chiado, em Lisboa, assemelha-se a uma roseta de renda. Pedra branca pontuada a pedra negra, convergindo para o centro, com a estátua do poeta do século XVI, António Ribeiro Chiado, e recortada pelos carris do eléctrico 28. É um dos pedaços mais emblemáticos da calçada portuguesa, parte integrante da história de um dos símbolos do urbanismo em Portugal.

A verdadeira história da calçada portuguesa

Criada no século XV, em Lisboa, a calçada portuguesa terá começado para impedir que um rinoceronte desfilasse pela cidade sem levar lama nas patas… sim, isso mesmo! O animal exótico aos olhos de um europeu da época foi trazido do Oriente por Afonso de Albuquerque e oferecido ao rei D. Manuel II. O rei terá gostado tanto, que o apelidou de Ganga e o mandou alojar na Torre de Belém. E a partir daí o rinoceronte passou a integrar o cortejo anual onde o monarca mostrava ao povo a sua riqueza. 

Para que Ganga não enlameasse os locais do desfile, mandou que os mesmos fossem revestidos com pedra, neste caso, o granito que mandou vir do Norte do país — a lenda conta ainda que a obra saiu cara devido ao transporte da pedra e que demorou algum tempo até a calçada se tornar popular. Pela sua popularidade, Ganga foi justamente o rinoceronte que o rei ofereceu ao papa Leão X e que Albrecht Dürer pintou em 1515 — este célebre rinoceronte contribuiu, assim, de várias maneiras para a arte no Ocidente. 

No entanto, tal como a conhecemos, a calçada portuguesa surgiu no século XIX e tornou-se numa das mais belas formas de pavimentação urbana. Passeios, praças e variadíssimos espaços de públicos surgem cobertos por pedaços de calcário de tamanho irregular assentes no chão numa espécie de puzzle que pode ter uma infindável série de motivos decorativos. 

A criatividade é, de facto, o limite para este tipo de pavimento, que se popularizou por todo o país e foi exportado para as colónias portuguesas existente na altura, cobiçado como ex-libris da arte de bem ornamentar o espaço público. Desde o Rossio, praça pioneira em grande escala, às estreitas ruelas do castelo, passando pelos Restauradores, onde está a estátua que homenageia o artista calceteiro, a calçada é uma marca da portugalidade que desafia, no entanto, equilíbrio de alguns pedestres. Escorregadia, inimiga dos saltos altos, vai criando declives com o uso; mas é facilmente recuperável e permeável à chuva, o que facilita o escoamento da água. 

A calçada portuguesa é tão importante para o país e mesmo para o resto do mundo que, em 2016, a Câmara Municipal de Lisboa iniciou o processo de candidatá-la a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

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