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Bairro Alto, uma colina que perdura há 500 anos

O silêncio do dia nas ruas estreitas, apenas cortado por uma ou outra frase que podia ser ouvida numa aldeia portuguesa, contrasta com o bulício e a música das noites. Popular na origem, às portas de uma Lisboa cosmopolita, entre o Chiado e a baixa da cidade, o Bairro Alto cresceu, primeiro com pescadores, depois com os padres jesuítas, nobres, artífices e ainda com uma certa boémia resultante do fado e da prostituição. 

Também foi este o bairro que serviu de sede a alguns dos grandes jornais portugueses. E esta mistura contaminou o espírito do lugar, que existe há 500 anos e vive marcado por contrastes.

Foi um bairro que nasceu fora das muralhas da cidade e que se tornou, séculos depois, num dos seus núcleos urbanos mais característicos, cercado por palacetes, conventos, igrejas e pequenas praças, numa colina que sobreviveu quase sem danos ao terramoto de 1755. 

É uma encadear de vielas com pequenas mercearias, tabernas, oficinas de ourives, lojas de artigos exclusivos; numa Lisboa onde ainda se vê roupa estendida nas janelas e varandas, a par das gaiolas com pássaros nas fachadas e as buganvílias nos muros das casas; uma janela aberta pode deixar sair o som de uma guitarra ou deixar escapar a voz de uma mulher a cantar. Há homens a fumar nos degraus, com um olhar lento, a contrastar com o ritmo e a agitação que se vive ruas mais abaixo...

Um bairro cheio de estórias

Existem também estórias que merecem ser contadas; estórias de muitas décadas, ainda escondidas. A verdade é que, durante muitos anos, a par com fadistas, prostitutas, bêbados, marinheiros e vendedores de todo o tipo de produtos, jornalistas, escritores e muitos intelectuais foram povoando as ruas; portanto, as redacções dos jornais e as suas respectivas tipografias coexistiram com a boémia e deixaram a sua dinâmica impressão digital nesta tão famosa colina lisboeta.

O livro "O Bairro dos Jornais – As histórias que marcaram o Bairro Alto e os seus jornais”, do jornalista e professor universitário Paulo Martins, recolhe testemunhos e reconstitui a vida de um dos mais emblemáticos bairros lisboetas em alguns dos seus momentos mais vitais. Um desses testemunhos é de Norberto Araújo (1889-1952), que escreveu em três jornais históricos que por ali existiram: "O Mundo”, "Diário de Notícias” e "Diário de Lisboa”. Diz Norberto que "que não há rua ou prédio por onde não tivesse rumorejado a vida da imprensa: o jornalismo literário, o jornalismo em tentativas sérias e o jornalismo de capricho e aventuras.”

O Bairro Alto representa a história do jornalismo em Portugal: pelas tipografias, numa altura em que os jornalistas trabalhavam em casa e apenas iam entregar os textos para serem impressos; pelas redacções que lá se iam estabelecendo; e pela vida quotidiana da maioria dos jornalistas — tantos foram os restaurantes e os bares escolhidos para serem a sua segunda casa, desde o final do dia de trabalho até amanhecer.

Hoje em dia, apenas um jornal resiste: A Bola, o desportivo, que ocupa a Travessa da Queimada; o único legado deixado pelo lendário bairro jornalístico.

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